Ter filhos é algo que nos leva para outra dimensão da existência. Se antes você, como eu, era viciada em telejornais, hoje, que tem um filho, certamente deixa a televisão ligada o dia todo em canais infantis da sua confiança.
Eu deixo. Sento ao lado do meu filho, me divirto com ele, o vejo aprender. Além disso, as animações são algo lindo de se ver. E se por um lado você demora um pouco mais para saber das notícias e não tem ideia de quem seja a celebridade do momento, ou a novela de que todos falam, por outro lado, volta a ser criança e dá boas gargalhadas de adultos.
As animações são feitas para as crianças, claro. Mas seus criadores são adultos. Com um pouco de atenção é possível perceber a interação e transferência de visão, de forma lúdica, entre esses dois mundos. Explico melhor: é ver, por meio do olhar infantil, e de forma bem humorada, coisas que os adultos já aprenderam.

Um menino adora dinossauros e quer ser cientista. Seu pai é arqueólogo e vive viajando. Ele mora com a mãe e o irmão. Os dinossauros aparecem para ele durante o dia: no quintal da casa, no pátio da escola e em outros cenários rotineiros da vida de uma criança. Com seus amigos dinossauros, ele faz vários experimentos para ampliar seu conhecimento de futuro cientista.
Para isso, não poupa a estrutura doméstica: utensílios de cozinha, brinquedos, rádios, cordas, panos e até comidas para servir de iscas para os dinossauros. Era um dia de neve, e todo o seu equipamento estava reunido na sala de estar. A mãe pergunta se ele quer sair com ela. Ele diz que não, está no meio de uma experiência. Uma experiência de como deixar a sala mais bagunçada? – a mãe pergunta. E ele responde, com muita convicção: “Mãe, você não entende. A ciência, às vezes, é uma bagunça”.
Em outro programa, um ser que vive no fundo mar é muito inocente e brincalhão. Um dia, na cidade em que ele vive, surge um concurso de dança. Ele fica feliz com a oportunidade e convida seu melhor amigo para participar com ele. Os dois saem rindo e rodopiando, de forma livre, porque, afinal, um concurso de dança representa uma diversão do tamanho de um oceano. O vizinho desta criatura marinha é um polvo. Ele trabalha como caixa de uma lanchonete, mas é muito culto. Um polvo erudito, mal-humorado e acadêmico.
O nosso amigo marinho é classificado no concurso e seu vizinho, não. O Polvo erudito, então, decide trabalhar sua frustração, treinando o inocente amigo. Ele fica muito feliz e comemora: “Oba! Vai ser muito divertido!” e sai, rodopiando, rindo e dançando livremente. O Polvo erudito e acadêmico, chama, sério, sua atenção, e com olhar de superioridade e tom de autoridade, diz: “Dançar não deve ser divertido. Dançar é arte, e arte é sofrimento”
Outra hora, um macaquinho muito inteligente é o animal de estimação de um cientista. Claro que, no desenho, o macaquinho é protagonista e faz o papel de identificação de uma criança que descobre o mundo, por meio das mais sutis aplicações da ciência na nossa vida. O simpático macaquinho viaja com o seu dono para uma casa de praia e, durante a estadia, surge uma tempestade.
O macaquinho, fugindo da tempestade, esqueceu na areia seu robô de brinquedo. No dia seguinte, com o tempo já calmo, seu dono o ensina a fazer um detector de metais. Mas a areia da praia é muito grande, então o esperto macaquinho divide a área em quadrados para procurar, e em cada um encontra uma coisa: chaves, sino, trompete, garfo, e uma grade dianteira de Cadillac 1957. Certamente o criador do desenho gosta de carros antigos.
E é bem assim, com essas informações sutis, que passam na frente das crianças, que elas se tornam cada dia mais espertas e cheias de conhecimentos surpreendentes sobre o mundo.
Se, um dia, seu filho que nasceu em 2010 falar de um Cadillac 1957, não se assuste. Todos nós demos aos nossos pais essa surpresa deliciosa de ver seu filho crescendo e aprendendo. E é acompanhando nossos filhos nessas imersões em mundos mágicos que nós, pais, nos desprendemos compulsoriamente de nossa seriedade e aprendemos a não levar tudo tão a sério, a rir da vida um pouco mais.
Viva o desenho animado!
